Intolerância na internet brasileira

Enviado por cat, seg, 11/30/2009 - 16:11

Tenho me assustado muito com a (baixa) qualidade das discussões em alguns blogs que tenho lido eventualmente e nos espaços de comentários de notícias no Correio Braziliense. Não tem uma notícia que leio que não venha acompanhada de comentários intolerantes e assustadoramente vazios. Pergunto-me se esse é um bom retrato da sociedade brasileira como está agora, ou se apenas reflete a opinião e a maneira de se expressar de uma barulhenta minoria. Também me pergunto se sempre foi assim, mas eu estava imersa demais na cultura para perceber, ou se está ficando cada vez pior.

Sou uma pessoa bem flexível. Considero uma de minhas melhores qualidades a capacidade de ouvir, pensar, discutir ideias e, se for o caso, mudar minhas opiniões. Gosto de pensar que é uma evolução. Não quero me fechar em meu mundo e barrar outras maneiras de ver as coisas. Por isso, estou sempre aberta ao debate. Não vou negar que às vezes, em discussões mais acaloradas, chego a ficar irritada, mas evito ao máximo levar para o lado pessoal. Posso não concordar com a outra pessoa, mas nunca vou sair xingando. E tenho tentado me policiar para nunca sair pensando nada do tipo "ah, não tem jeito, essa pessoa é idiota mesmo". Nem falar, nem pensar. É difícil, mas indispensável para uma pessoa que se julga cabeça-aberta.

Sendo assim, tenho ficado muito triste ao ver comentários em jornal como o abaixo, em resposta a um comentário que fiz sobre a história do estacionamento pago do ParkShopping em Brasília. Eu falei:

Desculpem-me, mas interesse da população é ter estacionamento grátis? E a história de que carro demais é ruim pra todo mundo? Estacionamento de shopping tem que ser pago mesmo, para desestimular o uso do carro e estimular uso de outros meios de transporte. Defender o interesse da população, no caso, é melhorar o transporte público, garantir a segurança de ciclistas… E não garantir que quem é rico o suficiente para ter carro vai ter onde estacionar de graça. Eu hein…

E recebi as respostas (grifos meus):

“E não garantir que quem é rico o suficiente para ter carro vai ter onde estacionar de graça”

Quem é rico o suficiente não vai se importar de pagar 5 reais. Mas nem todo mundo é rico o suficiente. Bem como o transporte público ainda não é bom o suficiente, logo, ainda não é correto forçar as pessoas a utilizarem um sistema precário. Que tal melhorar o transporte público primeiro, e deixar que as pessoas, com tal melhora, optem livremente por não ficarem presas em engarrafamentos? Acho que a situação prova que engarrafamentos conseguem serem melhores que os onibus e metrô lotados.

Desconfio que você tem é grana pra pagar os 5 reais, por isso quer o transito mais livre pra você. Ora, quem vai de metro ou bicicleta não tem que se preocupar com o transito, então você reclama do que?

Caro “catdevrandom”, em primeiro lugar não acredito que esse seja o seu nome! Em segundo, eu sou pobre e uso meu Monza 85 para ir ao Park Shopping todos os dias! Porque PRECISO! Estou aqui numa internet paga pelo meu cumpadre na nossa microempresa. Gostaria de dizer que a atitude dos Deputados Reguffe e Ulysses é digna e não beneficia só os ricos, afinal nós pobres também temos direito a ter carro! Eu tenho carro e é muito difícil mantê-lo! Pare de falar bobagem e aplauda aqueles que estão fazendo coisas em benefício da população em geral e não estão roubando como a maioria! Você é um blefe! Gostaria de saber o seu nome…

Os argumentos dos dois são bons, adoraria entrar em uma discussão legal que eu possa dizer para o primeiro rapaz o porquê de eu achar que primeiro devemos aumentar o custo do uso do carro, mesmo que a melhoria dos transportes ainda não esteja em pauta. Também adoraria falar ao segundo senhor que ter um carro que é difícil de manter não é uma boa opção para ele e pode estar deixando-o em dificuldades financeiras à toa, e ouvir seus motivos para manter seu Monza. Mas meus grifos mostram que talvez essas discussões não seriam nada legais ou agradáveis. O primeiro faz pre-julgamentos sobre minha classe social (ele acertou) e meus motivos (ele errou), desqualificando minha contribuição. O segundo também desqualifica minha contribuição, já que não bate com a ideia de mundo dele, dizendo que são bobagens. Também diz que "sou um blefe" porque não digo meu nome. Ora, já estou na internet há muito tempo para saber que colocar meu nome completo em qualquer lugar é até perigoso. Não me escondo atrás do anonimato; me protejo usando um pseudônimo (um dia ainda vou escrever sobre isso...). É diferente. O comentário estava linkado para este blog, e por aqui ele pode me mandar um email se quiser.

Veja a diferença em relação a este outro comentário, também sobre o mesmo tema do ParkShopping:

Pelos comentários posso concluir, como leitor asíduo do blog, que muitas pessoas comentam simplesmente por comentar, ser ter lido suficientemente ou se informado o bastante, e isso só demonstra a ignorância em que vive a maioria das pessoas que se dizem informadas.

Creio que a iniciativa dos parlamentares é válida pois o que está em questão não é se o consumidor deste serviço é rico ou não, mas sim a legalidade (ou moralidade) da cobrança. Por isso acredito que os deputados estão sendo felizes nesta fiscalização, sendo esta atitude uma das obrigações de um parlamentar, algo que muito poucos na Câmara Legislativa o faz e, quando faz, o faz sem muitos critérios, ao contrário dos referidos deputados.

Bom seria se mais deputados encampassem mais setores para fiscalizar, seja dos consumidores ricos ou pobres.

Muito melhor, né? Ele discordou de mim de maneira elegante e me fez pensar melhor sobre a atitude dos deputados. Concordo com ele que seria ainda melhor se os deputados se empenhassem também em outros setores, o que não invalida a atuação que fizeram nesse caso em especial.

Abaixo, uma lista com outros exemplos de intolerância em comentários, mas muito mais extremos. Desta vez, o tema foi a ocupação da FUNAI em Brasília (que, claro, o Correio Braziliense chamou de invasão), pedindo a demarcação das terras do Santuário dos Pajés no local onde querem construir o Setor Noroeste:

É muita falta do que fazer a ação desses manifestantes... com relação aos indíos querer ficar no setor Noroeste não merece nenhum comentário, pois parece brincadeira.

Brasília virou terra sem lei, que até os índios aderiram ao movimento dos invasores de terras públicas. Afinal, aqueles índios que vivem da pesca, tomam banho de rio é coisa do passado. Agora eles são investidores do Setor Noroeste, só estão querendo um pedaço do bolo. Se uns podem... eles também...

Com índio ou sem índio, esse Setor Noroeste é a maior tragédia que Brasília está por assistir. Além disso, avisa a essas bestas que invadiram o lugar errado. O problema não é com a Funai.

São esses playboysinhos da unb revoltados sem causa! É só darem um saco de roupa suja pra eles lavarem e encherem a cabeça com alguma coisa útil.

Mais um motivo para os estudantes se despirem e ficarem peladões.Esses caras não querem nada na vida. Enquanto isso os filhos dos menos abastados que gostaria de estar estudando na UnB, não podem. Os filhinhos de papai não querem nada, só bagunçar, não importa a causa, peia nesses folgados.

Onde estava a PF para retirar esses vagabundos à força da sede da Funai, não existe movimento nenhum, mas uma turma de arruaceiros. É fácil, manda esses falsos índios para outro estado, na amazônia tem terra sobrando para eles.

É isso, mesmo, é pura falta do que fazer por parte desses estudantes, já fui universitário e tive alguns contatos com esse povo, são pessoas que não querem estudar e ficam anos a fio na universidade ocupando vaga de outro. De politizados não tem nada.

Isso não é apenas no Brasil, claro. Sites estrangeiros também ficam cheios de comentários do tipo. Sim, até na Finlândia. Mas a impressão que tenho é que no Brasil é uma reação muito mais comum.

Oi moça! Lembra de mim? Eu te

Oi moça!

Lembra de mim? Eu te avisei sobre o Reinaldo Azevedo!

Olha, eu acho até um pouco engraçado, mas como você está fora do Brasil, está por fora de um processo que tem acontecido nos últimos dois anos.

O comentário ficou ENORME, mas acho que você vai ter bastante interesse em ler!

A imprensa no brasil vive um período de crise. Não sei se você viu esta notícia na semana passada, mas o IVC, instituto que mede a circulação de impressos contabilizou que a Folha de São Paulo, jornal mais influente do Brasil, está vendendo cerca de 21.000 unidades diariamente. No meio dos anos 90, esse número era de quase 500.000

Vamos repetir: o jornal mais influente do Brasil vende 21.000 cópias por dia. Num país de 160milhões de habitantes.

Link - http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/11/19/despenca-venda-dos-ex-...

(o que isto tem a ver com o nível dos comentários? Calma que tamos chegando lá)

A Internet é culpada pela crise dos impressos, mas definitivamente não é a vilã maior.

O grande problema dos impressos no Brasil é a crise de credibilidade.

A Veja por exemplo, virou um panfleto de extrema direita. Defende abertamente os interesses do partido Democrata (ex-PFL), seu aliado PSDB e do banqueiro condenado Daniel Dantas. Se você buscar saber sobre o governador do Distrito Federal, Roberto Arruda (do partido Democrata), que está nas manchetes neste momento quase perdendo mandato por corrupção, vai descobrir que a VEJA publicou uma entrevista com o rapaz alguns meses atrás, tratando-o como o político mais honesto do brasil. Infelizmente, a entrevista foi publicada na mesma semana em que o governo do próprio Arruda investia centenas de milhares de reais em publicidade na própria Veja.

A Folha de São Paulo, citada acima, passou o ano de 2009 inteiro em crise de credibilidade. Publicou na capa uma ficha policial acusando a ministra Dilma Rousseff de terrorista. A ficha era falsa, um spam que foi divulgado por email. Depois, o jornal publicou um editorial dizendo que a ditadura brasileira não foi nada demais, foi uma "ditabranda". O caso pegou tão mal que 500 manifestantes fizeram um ato em frente à sede do jornal. E por fim, essa mesma folha publicou um artigo totalmente sem provas na última sexta, acusando o Presidente Lula de haver tentado estuprar um colega de prisão em 1980. Todos os citados como testemunhas desmentiram o texto e o jornal ficou mais uma vez em maus lençois. Baixo nível perde.

Tudo bem, os impressos no brasil decidiram seguir o caminho do mais baixo nível para agradar seus padrinhos políticos. MAS O QUE ISSO TEM A VER COM O NÍVEL DAS CAIXAS DE COMENTÁRIOS???

Muito simples:

Os jornais brasileiros e seus respectivos portais viraram antros de pensamento de direita.

Quem lê os jornais ou concorda com este pensamento ou é muito velhinho (ou mal informado) pra mudar.

Isto implica que as caixas de comentários de estadão e correio brasiliense e outros estarão sempre COALHADAS das opiniões mais torpes e bizarras do mundo.

(principalmente pelo fato de que certos partidos políticos contratam empresas para floodar caixas de comentário com este tipo de visão - mas isto já é outra história.)

Enfim, te dou duas dicas:

1) Quer se informar sobre o Brasil, de forma isenta? Luis Nassif e Luis Carlos Azenha. É batata. São dois blogs excelentes, com uma audiência astronômica. O Nassif inclusive PRIMA por produzir um debate INCRIVEL nas caixas de comentário!!! Quer conversar com gente normal, é no Nassif! Acho que você vai se sentir bem em casa por lá!

(já o Azenha não modera muito comentário, então não é muito bom nessa parte)

Nassif - http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/

Azenha - http://www.viomundo.com.br

2) A outra dica é este post aqui do blog Quanto Tempo Dura?, um blog de humor. Ele compara as caixas de comentário do youtube com a festa realizada pela escolha do Rio como sede das olimíadas

http://quantotempodura.wordpress.com/2009/10/03/comparacao-rio-2016-caix...

Enfim, moça, já falei bastante1 Mas espero ter sido útil!

Um abraço!

Obrigada!

Mateus, vou te eleger oficialmente o facilitador de meu regresso ao Brasil :)

Muito obrigada pelas explicações!

Por favor, mantenha o contato :)

Abraços!

Ahahaha! Que isso, bonita!

Ahahaha! Que isso, bonita! Tamos às ordens!!! Sempre lendo o que você escreve!

E ó, tenha em mente uma coisa: o país tá cada vez melhor, viu. Pode voltar feliz da vida!

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